• Yuri Ribeiro

Defendo e visto a camisa do “é coisa nossa!”, quem me conhece bem sabe. Quando me perguntam sobre designers, antes de lançar o olhar para fora, gosto de lançar o olhar para dentro, para o meu entorno. O que temos de bom por aqui? O que enche a gente de orgulho? O que nós, piauienses, deveríamos conhecer?

Ao passo que me proponho esse exercício constante de olhar o Estado, me permito abraçar o meu papel de comunicador, aquele de ser ponte, de contar histórias. Apresentar, mostrar, falar. Levar adiante o que é nosso. O que tem aqui no Piauí!

Desde o ano passado observo a movimentação e o desenvolvimento de uma área até então tímida e pouco explorada por criadores e criativos aqui no Piauí. Dentro do cenário de moda autoral, que vem caminhando bem nos últimos anos, o campo das joias e acessórios vem despontando. A área já desbravadas por alguns profissionais há algum tempo, principalmente por conta da nossa herança de produção junto à Opala, ganhou o reforço de novos e bons nomes, trazendo um gás e chamando a atenção para as criações.

Elejo aqui cinco nomes de marcas e designers piauienses de acessórios que você precisar conhecer e acompanhar. Alguns já tem uma trajetória de mercado e compõe essa lista dos cinco mais pela carreira consolidada, pelo posicionamento e ainda pelas recentes criações. Outros, chegaram a pouco tempo no merccado, conquistando espaço através do seu trabalho – e os trago aqui como apostas do segmento! CAROLA (@carolajoias)

A Carola é uma cria da designer Carol Carvalho. Em meados de 2014 adentrei pela primeira vez no ateliê da marca, que se dividia entre oficina de criação e loja. Ali, naquele espaço, a Carola já tinha construído uma história que eu estava preste a conhecer. Hoje, em 2020, são dez anos de marca.

Na época, Carol estava prestes a lançar a coleção “Boa Sorte”, fruto de pesquisas do projeto Identidade Local. Naquela linha, madeira entalhada misturava-se a prata e contas de miçangas. Ao olhar as peças em processo de produção identifiquei os dois pilares que sedimentavam a marca: poesia e piauiensidade. As criações contava uma história e tinham raízes afetivas. E o Piauí desde aquele início era introduzido às peças por meio de materiais e da valorização da mão de obra artesã de alguns parceiros.

Me tornei um fã da marca e de lá para cá tenho acompanhando seu crescimento no mercado. Nesses últimos anos Carol, com toda sua sensibilidade e olhar criativo, conduziu muito bem os rumos da Carola, que se profissionalizou ainda mais e abraçou seu posicionamento. Avançou em termos de identidade visual e também de produto, com um refinamento no designer e acabamento das peças.

Carregar Carola consigo é carregar um pouquinho de afeto e Piauí no peito.

KALINA RAMEIRO (@kalinarameiro)

Não há como falar de acessórios no Piauí sem falar de Kalina Rameiro. Nome forte da cena autoral há mais de 20 anos, traz das artes plásticas, sua área de formação, a sua identidade e principal marca de trabalho na moda. É a soma desses dois universos que permitem, aliás, que as criações sejam tão únicas em termos estéticos e tão representativas em termos de essência.

Os quadros e os painéis vieram primeiro na trajetória de Kalina e permitiram que ela adentrassem e expandisse seu repertório cultural para o universo dos acessórios. O traço que dava vida as obras da artista, foram incorporados em outras plataformas. Pouco a pouco a artista foi desenvolvendo bolsas, colares, anéis e pulseiras.

As criações de Kalina tem um designer forte. A grande maioria parte de uma premissa Hi-Lo, onde a artista mescla materiais como prata e pedrarias com um mix de materiais alternativos. Seguindo um posicionamento fincado na sustentabilidade, ela trabalha com itens jamais pensados para acessórios, que vão de espinho de mandacaru a palitos de fósforo e raspas de lápis de cor. O resultado é sempre uma combinação ultra sofisticada.

Kalina é um mergulho em um mar das artes.

MAIHARA BRANDÃO (@maiharabrandaojoiaautoral)

Quando se fala em Maihara Brandão me vem à cabeça a imagem dela sentada na sua oficina, com a mão na massa, fundindo e lapidando metais. Foi assim que eu a conheci e foi assim que nos reencontramos várias vezes, em um cenário envolto por solda, pedrarias, chapas e muitas ideias. O paixão e o primor ao trabalho artesanal que Maihara possui é visível nas suas criações. Milimetricamente pensadas, esculpidas e acabadas. Em cada peça há um pouco dela.

Maihara é uma estudiosa incansável. Aprimorou suas técnica de ourivesaria e desenvolveu processos próprios, como a gemificação da cerâmica. Essas se transformaram em suas principais marcas de trabalho. A cada coleção as peças acompanham a evolução da própria Maihara enquanto designer, e sem seguem perder a construção inteligente, contemporânea e sofisticada.

Depois de levar peças a SPFW e marcar presença duas vezes no DFB Festival, maior evento de moda autoral da América Latina, Maihara deu um salto. Amadureceu seu trabalho, alinhou-se ainda mais a um posicionamento sustentável e fixou sua marca enquanto designer de joias. Depois da coleção “Facetas”, a versatilidade das peças, que se reorganizam em várias possibilidade de uso, se firmou como um caminho indissociável a sua identidade.

Maihara é o equilibro entre artesanal e o contemporâneo em sua mais sublime forma.

ZUL (@zul.oficial)

Posso dizer que eu literalmente vi a Zul nascer. Fruto da genialidade da designer Larissa Castro, a marca começou a ganhar forma na sala de aula do curso de Design de Moda, no ano passado. Dos primeiros desenhos até a apresentação da primeira coleção, no desfile final da faculdade, eu enxerguei o que vem delineando a identidade da marca: força e presença.

Para a primeira coleção da Zul, Larissa se inspirou em Cleópatra, o que diz muito sobre a essência da marca. É para mulheres que não temem ser quem são, que não abre mão do exagero, na sua medida, para dizer sobre si mesmo. Na Zul, Larissa atualiza o estilo Cleópatra de ser, que se vivesse hoje seria empoderada e fã de peças contemporâneas.

Larissa Castro vem aprimorando suas técnicas e investindo em ourivesaria, o que aponta que poderá guiar os rumos das próximas coleções. Fiquem de olho na Zul! É uma marca que carrega todos os elementos de outras marcas de acessórios atuais que despontam em outros estados. É jovem, descomplicada, divertida e possível.

ISABELA ANDRADE ATELIER (@isabelaandradeatelier)

Devo confessar que acho sensacional quando a criação imprime exatamente a personalidade do criador. Isso é totalmente admirável. Digo isso porque esse é um processo difícil no caminho para a construção de uma marca. Requer autoconhecimento do designer e também conhecimento dos valores de marca e público consumidor. A designer Isabela Andrade conseguiu fazer isso muito bem, sedimentando sua marca como uma extensão de si.

Primeiro conheci Isabela, para depois conhecer suas criações. No primeiro contato com ela, os acessórios que ela leva consigo não passam despercebidos. A designer carrega com naturalidade, com pertencimento, tudo que cria, como se ali tivesse parte de si. E tem. Isabela carrega uma elegância própria. Seus acessórios também. Isabela tem um estilo moderno. Seus acessórios também.

Tenho visto muito contente o crescimento da marca nos últimos anos. E digo: é um bom nome local para se acompanhar. Cada vez mais madura e mais fiel a sua essência. A identidade segue ali presente, na assimetria e nas formas orgânicas feitas a partir de processos de lapidação. E são essas características bem próprias que farão a marcar crescer mais.

  • Yuri Ribeiro

Enquanto faltam EPIs nos principais aparelhos de saúde pelo país (e mundo afora!), marcas transformam o item em um acessório de luxo.

Ainda não falávamos da obrigatoriedade do uso de máscaras quando Billie Eilish despontou no tapete vermelho do Grammy, em janeiro de 2020. Quem não a conhecia, conheceu ali, na naquela noite, quando, aos 18 anos, a cantora vencia as quatro principais categorias da premiação. Fenômeno entre a geração Z, Billie é também um ícone fashionista para sua legião de fãs e, embora já tenha aderido outras vezes, validava ali – para todos, o uso de máscaras como um acessório de estilo.

Billie Eilish transporta para seu estilo e sua estética referências orientais. E isso não é algo à toa. O mundo, antes da pandemia, estava virando seus olhos para lá, principalmente no quesito cultura pop. Japão e China, que há anos se sedimentaram como potências econômicas, hoje, quando o assunto é moda e música, aparecem na vanguarda. Atualmente se consome por aqui o que já está literalmente nas ruas de lá há bastante tempo. Curiosamente as máscaras cirúrgicas são um item dessa lista.

Por questões culturais que consideram, por exemplo, cenários de poluição e transmissões de doenças, a máscara já é um artigo do guarda-roupa oriental. Por lá, se usa máscara mesmo que você apresente um quadro de saúde considerado saudável e isso é ensinado a todos desde a escola. É como um peça para vestir. E se alguém veste rotineiramente, logo é considerado um item de moda. A confirmação disso veio, principalmente, quando ícones da música e celebridades passaram a adotar as máscaras em seus figurinos, elevando o status desse item.

Isso trata-se de um claro processo de ressignificação. Por aqui, no mundo ocidental, estamos vendo isso acontecer (e talvez sem se questionar), de forma mais acelerada, por conta do contexto. E é justamente o contexto que se faz penitente nesse momento para nos fazer rever esse processo. É exatamente essa a questão e o ponto de discussão.

Com esse cenário mundial faz realmente sentido a máscara se popularizar como um item de estilo? Porque elevar as máscaras a um determinado status enquanto elas se tornam itens essenciais e básico em hospitais?

Ao passo que pessoas começavam a se internar, em meados de fevereiro, na Itália, fashionistas desfilavam seu street style com máscaras grifadas. Como foi o caso da influencer Nicole Raidman que foi ao desfile da Chanel com equipamentos de proteção no melhor mood “look do dia”. Enquanto os noticiários tratavam dos números que não paravam de subir, em março, marcas anunciavam em e-commerce, a preços altíssimos, as máscaras como o must-have da vez. Como aconteceu com a Off-white e ainda o estilista Virgil Abloh, que lançou máscaras de algodão a US$ 68 (R$ 262). Hoje, enquanto procuramos respostas para tantas incertezas, influenciadoras postam entre seus “mimos” máscaras exclusivas de algumas marcas.

Estamos nos tornando cegos para os problemas e nos deixando ser consumidos por um sistema? Perdemos a sensibilidade?

É possível sim que as máscaras tenham tornando-se um artigo de luxo. Inegável. Mas, quando digo isso não falo unicamente do luxo comercial, vendável, de caráter grifado e ostentador, que já está consumado. Não falo da máscara com assinatura ou uma logo. Digo isso propondo outra perspectiva, do ponto de vista da escassez. Na outra ponta do sistema temos profissionais de saúde na linha de frente no combate à pandemia enfrentando, além da doença, a falta de equipamentos de proteção individual. Para eles, as máscara são luxos. E a conta poderá vir lá na frente, com um preço alto demais a se pagar.

  • Yuri Ribeiro

START.doc. Nomeei o arquivo desse texto dessa forma. O primeiro dentro da pasta “site”, recém criada na minha área de trabalho. A vida é sobre ciclos. E esse vai ser mais um start, em mais um deles.

Estamos passando por um momento que veio pra provar que, por mais planners que a gente preencha, e por mais metas que a gente trace na virada no ano, na real, a gente não tem controle mesmo de nada.

Esse cantinho aqui que vos apresento é um sonho antigo. Idealizo e penso nele há bastante tempo. Botei no meu planner de metas para 2020. E sim, virei o ano pensando nele. Havia planejado apresentar a vocês de uma outra forma e em um outro momento. Mas, assim como todo mundo, eu senti a reviravolta que o cenário nos impôs.

“Mas, se não era o momento, porque apresentar ele agora, Yuri? É realmente a hora de abrir esse canal de comunicação aqui?” Sim! Para mim, essa decisão me diz muito sobre ciclos.

Desde o ano passado, me pego em uma inquietude constante. Ciclos foram encerrados para que ciclos novos fossem iniciados. Foram tantos altos e baixos – como nunca antes – que em algum momento eu senti que me desconectei de mim. Senti que precisava partir para uma nova busca, dessa vez uma busca interior, com um olhar cuidadoso para dentro de mim. Quando me dei conta disso, senti um frio da barriga por me achar totalmente perdido enquanto estava em volto por pessoas tão conectadas a si mesmo. Essa sensação demorou até eu perceber que uma hora ou outra a fase do autoconhecimento chega para todos. Se não chegou para você, ainda vai chegar. Se já chegou, que privilégio o seu!

“Mas como pode alguém que sempre soube da sua essência, sempre identificou seus propósitos, estar perdido e desconectado de si mesmo?”, me perguntava dia e noite. Depois de tanto procurar respostas para essa questão, passei a compreender que autoconhecimento está relacionado a escolhas e caminhos. Que eu havia trilhado alguns caminhos, que me levaram longe, mas que eu precisava fazer novas escolhas para traçar outros. E nessa jornada, eu não precisaria ter que abrir mão da minha essência e dos meus propósitos (a terapia me ajudou aqui nesse dilema, um salve a minha terapeuta!). Ufa, respirei aliviado.

Bom, não encerrei e nem comecei todos os ciclos que queria e ainda quero (a pandemia me fez esperar). Ainda estou bem longe (e como estou), da nirvana do autoconhecimento (e na real? acho que nunca alcançaremos essa plenitude! é possível será?). Mas, enxerguei o que deve ser feito e estou seguindo decidido nas escolhas.

“Mas o que ciclos e um site tem a ver? Acorda, estamos passando por uma pandemia mundial e você vem me falar disso?!”. Quer um momento mais propício para encerrar e começar ciclos que nem esse? Primeiro: faço o anúncio desse espaço no dia do meu aniversário, 10 de abril, em um novo começo de ciclo pessoal. Segundo: não sairemos desse cenário mundial da forma como entramos porque ciclos precisaram ser encerrados e novos ciclos estarão pronto para começar. E, por fim, terceiro: no meio dessa quarentena toda eu senti a necessidade de expor o que eu penso (quem sabe até pra inspirar e ajudar) de alguma forma. Tem muitas questões da minha área surgindo e eu gosto mesmo é do debate. Por isso antecipei os planos e, como ele já estava quase pronto, cá estou com esse site.

Eu já queria chegar aqui prometendo a vocês uma série de postagens com textos que já deveriam estar prontos para entrar no ar. Mas não, vai ser algo natural, como eu sinto que deve ser. Aqui eu vou abrir meu livro (mais ainda!) da vida. Falar do que eu acredito, da forma que eu acredito e para quem quiser embarcar comigo. Não sei ainda como vai ser. Mas, te convido a vir comigo. O mínimo que vai acontecer é a gente trocar uma ideia. Topa?

Ilustrei esse primeiro post com as fotos de um ensaio que eu fiz em Paris, em outubro de 2019. Não são as fotos que imaginei para a primeira postagem, mas acredito que nada é por acaso. Então conclui que sim, deveriam ser elas. Escolhi porque elas traduzem a felicidade que eu estava durante um determinado ciclo. É exatamente a mesma que eu estou sentindo ao começar esse aqui.

Por hoje acho que é isso. Deixo meu obrigado a você que chegou até aqui junto comigo. E também um seja bem-vindo!

P.S.¹: Queria agradecer imensamente a Camila Marques, amiga que entendeu minha essência e com toda sua sensibilidade e talento conseguiu criar minha marca. Minha gratidão também ao Jeferson Viveiros, pela paciência e dedicação em desenvolver esse site (ele acha que se livrou de mim, mas estamos só começando!).

P.S.²: Eu escrevo muito (assim como falo demais)! Prometo tentar me adequar a esse novo formato e fazer dos nossos diálogos o menos enfadonho possível.

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