• Yuri Ribeiro

Máscaras: um artigo de luxo? Para quem?

Enquanto faltam EPIs nos principais aparelhos de saúde pelo país (e mundo afora!), marcas transformam o item em um acessório de luxo.

Ainda não falávamos da obrigatoriedade do uso de máscaras quando Billie Eilish despontou no tapete vermelho do Grammy, em janeiro de 2020. Quem não a conhecia, conheceu ali, na naquela noite, quando, aos 18 anos, a cantora vencia as quatro principais categorias da premiação. Fenômeno entre a geração Z, Billie é também um ícone fashionista para sua legião de fãs e, embora já tenha aderido outras vezes, validava ali – para todos, o uso de máscaras como um acessório de estilo.

Billie Eilish transporta para seu estilo e sua estética referências orientais. E isso não é algo à toa. O mundo, antes da pandemia, estava virando seus olhos para lá, principalmente no quesito cultura pop. Japão e China, que há anos se sedimentaram como potências econômicas, hoje, quando o assunto é moda e música, aparecem na vanguarda. Atualmente se consome por aqui o que já está literalmente nas ruas de lá há bastante tempo. Curiosamente as máscaras cirúrgicas são um item dessa lista.

Por questões culturais que consideram, por exemplo, cenários de poluição e transmissões de doenças, a máscara já é um artigo do guarda-roupa oriental. Por lá, se usa máscara mesmo que você apresente um quadro de saúde considerado saudável e isso é ensinado a todos desde a escola. É como um peça para vestir. E se alguém veste rotineiramente, logo é considerado um item de moda. A confirmação disso veio, principalmente, quando ícones da música e celebridades passaram a adotar as máscaras em seus figurinos, elevando o status desse item.

Isso trata-se de um claro processo de ressignificação. Por aqui, no mundo ocidental, estamos vendo isso acontecer (e talvez sem se questionar), de forma mais acelerada, por conta do contexto. E é justamente o contexto que se faz penitente nesse momento para nos fazer rever esse processo. É exatamente essa a questão e o ponto de discussão.

Com esse cenário mundial faz realmente sentido a máscara se popularizar como um item de estilo? Porque elevar as máscaras a um determinado status enquanto elas se tornam itens essenciais e básico em hospitais?

Ao passo que pessoas começavam a se internar, em meados de fevereiro, na Itália, fashionistas desfilavam seu street style com máscaras grifadas. Como foi o caso da influencer Nicole Raidman que foi ao desfile da Chanel com equipamentos de proteção no melhor mood “look do dia”. Enquanto os noticiários tratavam dos números que não paravam de subir, em março, marcas anunciavam em e-commerce, a preços altíssimos, as máscaras como o must-have da vez. Como aconteceu com a Off-white e ainda o estilista Virgil Abloh, que lançou máscaras de algodão a US$ 68 (R$ 262). Hoje, enquanto procuramos respostas para tantas incertezas, influenciadoras postam entre seus “mimos” máscaras exclusivas de algumas marcas.

Estamos nos tornando cegos para os problemas e nos deixando ser consumidos por um sistema? Perdemos a sensibilidade?

É possível sim que as máscaras tenham tornando-se um artigo de luxo. Inegável. Mas, quando digo isso não falo unicamente do luxo comercial, vendável, de caráter grifado e ostentador, que já está consumado. Não falo da máscara com assinatura ou uma logo. Digo isso propondo outra perspectiva, do ponto de vista da escassez. Na outra ponta do sistema temos profissionais de saúde na linha de frente no combate à pandemia enfrentando, além da doença, a falta de equipamentos de proteção individual. Para eles, as máscara são luxos. E a conta poderá vir lá na frente, com um preço alto demais a se pagar.