• Yuri Ribeiro

Por que a moda nordestina é considerada regional e a do sudeste considerada nacional?

Texto em colaboração com Lucas Assunção, mineiro, publicitário e produtor de conteúdo de moda no Santo de Casa.



Já parou para pensar sobre aquilo que é considerado nacional, brasileiro, e aquilo que é considerado regional no nosso país? Na moda (mas não só nela) é comum ouvimos termos como “exótico”, “étnico”, “regional” para se referir a alguma estética que não a normativa e dominante. Especificamente no Brasil, a moda produzida no Sul e Sudeste são expoentes da moda nacional enquanto que a moda produzida no Nordeste e no Norte é classificada como regional. Por que isso acontece?


Para refletir sobre isso, talvez seja preciso voltar um pouquinho no tempo. Parar e olhar para as bases culturais formadoras da nossa identidade e o processo de construção dessa identidade ao longo do tempo. Entender sobre essas influências e o impacto delas, e ainda sobre nossa cadeia produtiva, pode ser um norte na compressão dessa classificação entre o que é “nacional” e o que é “regional”.


Fazendo um resgate histórico é possível concluir que o Brasil é constituído por uma pluralidade de referências, que acompanham uma linha do tempo desde o período colonial. Antes da família real despejar suas influências europeias por aqui, a cultura indígena formava um dos pilares de uma identidade macro. Negros trazidos pelo processo escravocrata e sertanejos, que mais tardes lutariam pela república, contribuíram, a princípio, no caldeirão cultural brasileiro.


O vestuário desde sempre foi um demarcador visual de uma cultura. Em um país multicultural como o Brasil, a roupa traduz e revela toda essa mistura de povos, saberes e tradições, incorporando signos comuns a cada base cultural. Logo, cada região brasileira foi naturalizando e tornando comum elementos e características do seu universo cultural naquilo que se vestia. Assim, podemos entender que há uma variedade do que pode ser considerado “regional” no Brasil.


Avançando da linha do tempo, também avançamos nos aspectos produtivos. Ao passo que em algumas regiões, tais signos incorporados ao vestuário, e que refletiam determinados universos culturais, restringiam-se ao saber popular e a técnicas artesanais, outros, foram sendo incorporados a uma cadeia produtiva industrializada e organizada. Há então uma massificação de uma cultura que é transmitida como hegemônica – o considerado “nacional” - enquanto todos os demais signos permanecem na esfera do folclórico.


Tais questões, dentre outros fatores, são determinantes para uma categorização. Para além disso, não podemos desconsiderar a existência de estigmatização, que se sedimentou ao longo do tempo, da produção que vem dessas regiões. Na nossa sociedade, tudo o que não é o hegemônico é tido como diferente, minoritário e identitário. No Brasil, a hegemonia social, cultural e econômica é a do Sudeste - o que não diz respeito a maioria, mas sim sobre privilégio econômico e social - portanto, tudo o que difere dessa cultura é tipo como regional e identitário.


Nesse sentido, a produção de moda nortista ou nordestina é chamada de regional também pela estigmatização de que a norma é o que é produzido no sudeste. Caso os papeis se invertessem, a produção do Nordeste seria nacional e a produção de regiões como sul e sudeste seriam consideradas regionais. O motivo da cultura branca e do sul-sudeste ser valorizada sobre as outras do nosso país vem de preconceitos, preceitos colonialistas e eurocêntricos que valorizam a cultura branca sobre a cultura de outros povos e que não afetam somente à moda. Não é coincidência, por exemplo, que o centro econômico e de maior concentração de renda do nosso país seja a região sudeste.


É importante descolonizar o pensamento e a educação: deixar de entender o que não é hegemônico e normativo como, necessariamente, exótico ou regional, sem, no entanto, deixar de valorizar as raízes histórico-culturais do nosso povo.