• Yuri Ribeiro

Sobre quarentena e compras online: quando um pacote dos correios é a única certeza do futuro

Confinados em uma quarentena e sem muitas perspectivas de futuro, estamos vendo uma saída para nossa ansiedade nas compras online

Ultrapassamos cem dias de uma realidade sem respostas. Estamos há mais de três meses em quarentena (ainda estamos mesmos?). Dentro de casa, restam poucas certezas sobre o que nos aguarda lá fora. O que esperar do futuro? A gente se pergunta com uma certa frequência.

Não sei quanto a vocês, mas minha noção de futuro, nessas semanas de confinamento, tem se restringindo a esperar as compras que tenho feito online (e não me orgulho disso!). Limitado de fazer muitos planos a médio e longo prazo, minha lista de planos tem se resumido a uma lista de códigos de rastreamento. As compras estão preenchendo um vazio. Logo eu, que não via sentido algum fazer compras em meio a uma crise sanitária mundial.

Esse é um comportamento bem preocupante, eu sei. E não é um comportamento exclusivamente meu. Tenho visto que muitas pessoas também compartilham dele. Por isso, cá trago reflexões.

Conversando com minha terapeuta ela me apontou uma resposta para o que estaria por trás das compras desenfreadas que estão se sucedendo. “Na falta de algo que lhe motive e te empolgue na sua rotina que ficou monótona, você está buscando uma falsa sensação de felicidade. Mas, ela é momentânea”, disse ela quase que como um veredito.

Refleti muito sobre isso nos últimos dias. E sim, a ficha caiu. Tenho descontado minha ansiedade e minhas angústias comprando demais. A sensação de ter pelo o que esperar, me empolga. Antes passava o tempo contando os dias para um jantar com as amigas, para uma reunião de trabalho importante, para a sessão de cinema semanal, para viajar, para fazer um curso. Hoje, passo o tempo contado os dias pela chegada do pacote dos correios.

Acordo checando o código de rastreamento. A cada som de moto lá fora, na rua, corro para a porta na expectativa que seja os correios. E quando, finalmente, chega a encomenda, me sinto invadido por uma sensação como se eu tivesse sido enfim contemplado. E depois, como bem alertou minha terapeuta, o êxtase passa (embora muitas das compras me trazem pequenos prazeres diariamente). Compras onlines viraram, definitivamente, minhas motivações diárias nessa quarentena, confesso.

Bom, vos relato tudo isso por alguns motivos. O primeiro, porque acredito que assim como eu, outras pessoas estejam passando por isso: comprando demais itens que julga necessário. E isso pode ser reflexo do nosso emocional, afetado pelo cenário de pandemia. Acho que nós, do time dos CCM (Compradores Compulsivos Onlines, rs), devemos estar ciente de que o bem-estar que a gente procura talvez não esteja nas próxima caixa que chega pelos correios.

Vamos nos comprometer a, a partir de hoje, buscar outras formas de preencher as lacunas sobre o futuro que nos assola? Vamos canalizar nossas energias, e com isso economizar (aê \o/), para outras coisas.

E outra razão pelo qual trago esse meu relato é para trazer uma constatação: somos realmente crias de uma sociedade do consumo. Mas, mesmo estando totalmente imersos nelas, podemos fazer escolhas responsáveis que vão desencadear impactos positivos.

Tenho plena convicção que ainda falta muito para que eu adote uma postura de consumo consciente. Mas, sei da importância e da urgência em adotar. Nosso futuro precisa ser longe dos excessos e com hábitos de consumo mais responsáveis. Precisamos rever nossas práticas pra ontem e elas podemos começar agora. Faz parte do “novo normal”.

Por isso, vos convido a se perguntarem “eu realmente preciso disso?” sempre que pensarmos em uma comprinha online de agora em diante. Vou me esforçar daqui e vocês se esforcem daí, combinado?

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